sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Caros amigos de outrora (uma amizade perdida)

Caros amigos de outrora,

Saibam que os amo. Mesmo que não me entendam. Mesmo que eu não os entenda. Mesmo que tenha ficado tanto a ser dito.

Saiba que ainda lembro, e que ainda sinto. E que me dói a distância. E que apesar de tudo, e de nada, eu jamais vou esquecê-los.

Embora já não se lembrem de mim.

O que mais dói não são os erros. Meus ou de vocês. Ninguém é inocente. O que mais dói é o quanto tudo foi descartável. Como se fosse reciclável. Como se realmente não fizesse a diferença. E não é. Pra mim, não é.

Quando achei que a noite ia me engolir, o silêncio de vocês, caros amigos, foi quase ensurdecedor. Queria tanto explicar o que eu não podia, o que eu não queria, o que eu não sabia. E o quanto eu sentia muito tudo isso. Mas já é tarde. E falar para quem já não escuta é cantar para as paredes. Todos nós sabemos no que acreditar.

Tudo o que tenho para oferecer é o desejo de que tenham uma boa vida, caros amigos de um dia.

Deixo, como lembrança para vocês, o meu afeto, embora este já não lhes sirva de nada.

Vejo-lhes um dia no passado, já que ele é tudo o que restou.

Adeus

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A Redoma de Estanho (ou Way to Blue)


Me diga, alma minha
O que Shakespeare diria
Se vivesse no tempo
Onde um olhar significa tão pouco
E o eterno se perde em cada esquina?

Ela nunca quis ser bela
Ela só queria
Que um estranho um dia lhe perguntasse
'Mas, na verdade, quem é você?'

Ela não sonha com o príncipe encantado
Ela não quer ser salva do fracasso
Ela só queria que alguém entendesse
Que existe algo além do que se vê

Mas ninguém se importa
Ninguém se pergunta
'E quem é a menina?'
do olhar triste
da boina verde
e das velhas sapatilhas xadrez?

Ela queria ser bailarina
Quando pequena.
achava que quando chovia,
São Pedro chorava
E à noite, escondida em seu quarto
escutando Nick Drake bem baixinho,
ela sonhava com o dia
Em que o coração ia disparar
E as palavras teriam significado

E o que ela diria?
Talvez contaria de si
Ou ficaria sentada a ouvir
Mas isso, ninguém nunca vai saber
Portanto, então me diga , alma minha.
O que você acha que Shakespeare diria?





segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Holden Caufieldianismos


Gelo
Um copo de gin
A solidão da multidão
Mais um dia perdido na cidade
Os olhos que observam
Os corpos que se cruzam
mas não vão além do que se vê
Conversas vazias
Piloto automático
Mais uma dose, por favor
e aplausos para as aparências
Papo de calçada
Não há nada novo
Não há nada além do convencional
E eu ando
e eu faço parte
e eu me sinto longe
espectadora de um espetáculo previsível
Mais um dia perdido na cidade
Que nunca dorme
Nunca entende
e nunca perdoa

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Push the F button

Abandone as noções
Os pré requisitos
os hífens
as reticências
descomplique
desencane
faça menos
ou mais
o que importa
é não se importar

Produtividade é a prisão dos outros.

No meu dicionário, a palavra da (des)ordem é

Viver, e nada mais.

O resto, pode ir pro inferno. Ou pro céu.

Não faz diferença.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Ele nunca disse eu te amo


Passos. O ritmo de passos. Ela conhecia o ritmo daqueles passos. Hesitantes, arrastados, livre de sutilezas. Olhou mais uma vez pela janela. Quantas vezes pode se olhar o mesmo cenário sem sentir que não há mais nada para se ver?


Quantas vezes pode se olhar para a mesma vida sem sentir que ela perdeu o sentido?


Ela sonhava em ser bailarina, mas nunca aprendeu a dançar. Queria ser trapezista, mas tinha medo de altura. Queria ir embora com ele, fechar os olhos e se abandonar aos sentidos. Ele. Não os outros. Passo largo, decidido. De uma gentileza arredia, daquela que não se perde em palavras e gestos grandiosos. Mas que está lá, sem a necessidade de explicação, e de palavras vãs como amor, coração e ternura. De um magnetismo tão forte que era como se, na presença dele, ela fosse toda retalhos. Pedaços de si mesma, indefinida e invencível. Dividida e completa. Pedaço de si mesma nele. Ele. Olhos verdes. Jaqueta de couro. Cheirava a tabaco e grama molhada. Um rabisco num guardanapo. Ela sabia que ele não podia ficar.


Não sei o que te prometer, o futuro é nosso até que você diga o contrário. Só venha.


Venha.


E ela quase foi. Mas parou, ponderou e avaliou. Não era assim que deveria ser. Príncipes não cheiram a tabaco. E ela não foi. Repetiu pra si. Não é assim que deveria ser.


Ele nunca disse eu te amo.


Rabiscou uma resposta.


Não.


Um dia, ela encontrou alguém. Sorriso fácil, rosas vermelhas, todo palavras e elogios. Passo hesitante, arrastado, livre de sutilezas. Boas maneiras, cheiro de colônia. Um bom homem.


Eu te amo.


E ela se convenceu que era assim que tinha de ser.


E agora se pergunta, a ouvir os passos hesitantes na soleira:


Onde estará a alma que ela abandonou num pedaço de guardanapo?



segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Clara


Ela gosta de lugares vazios
De dias cinzas
De paredes sem reboco e tinta
De verdades nuas e cruas
O som de unhas arranhando o quadro negro
Mantém os cabelos sobre a face
As sobrancelhas arqueadas
Selvagem
Intimidante
Unhas pintadas de preto
Bebe uísque duplo sem gelo
Como poucas
Como outras
Ainda assim, como mais ninguém

O nome é Clara
Uma leve ironia,
A subjetividade do destino
Nunca pôde ser donzela
Nunca pôde ser indefesa
A vida tornou impossível
Sonhar leves sonhos de papel
Sem que a água
Doce, pura e cristalina
Desfaça suavemente
A ilusão que se criou

Clara, seja forte
A vida é um jogo
O mundo um bueiro
Clara, minha cara
Não impeça as paredes de ruírem
Pesadas
Ásperas
Abrace o caos
E sinta na pele
O peso da escolha
De ser o que os outros não são
Indefinida
Indomável
e livre dos outros
mas prisioneira de si

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Lembranças e um maço de cigarros


E o que você fará agora?

Vai dançar na chuva descalço?
Beber vinho barato na calçada?
Inventar um sonho novo?
Ler o mesmo livro pela décima vez?
Gritar até a garganta doer?

Vai querer estar sozinho?
Vai chorar por estar sozinho?
Vai lembrar da infância
e pensar que foram os melhores dias?

Vai encontrar os amigos
e rir até a barriga doer?
Vai olhar pra trás
e achar que está mais sábio?
Vai pensar em mim
e achar que valeu a pena?

Vai sorrir de leve
Fechar os olhos por um segundo
E mais uma vez
Só mais uma vez
pela última vez
Me diga, vai pensar em mim?

E eu, o que vou fazer?
Não sei
Talvez eu vá embora
Carregando comigo lembranças
E um maço de cigarros
Pra lembrar da vida que tem fim
Mas nunca acaba



sexta-feira, 10 de julho de 2009

O tênue (a sentença)


Nunca pensei no nascer do sol. Em ficar sentada admirando o momento em que ele surge. Nunca pensei em muitas coisas, na verdade.
E a verdade, é que eu quase não penso mais em você. Quase.
Eu só penso no quase.
No dia em que eu quase disse não.
O dia em que eu quase disse sim.
O dia em que eu podia ter saído, mas fiquei em casa.
O dia em que eu podia ter escolhido o caminho mais longo, e cortei pelo atalho.
O dia em que eu desisti de tudo.
O dia em que eu decidi que não valia a pena.
Que ia passar.
Que tinha que passar.
Não é que me atormente.
Eu sei que fiz o que pude com o que eu não podia saber.
Mas é o quase que me mata um pouco
Que leva um pedacinho
Um quase pedacinho
Pra longe
Porque foi quase
Por um triz
Você não me fez feliz
E vice-versa